10/05/2026
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Omissão sistêmica: como Vorcaro usou o sistema para fraudar

Omissão sistêmica: como Vorcaro usou o sistema para fraudar

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Flávio Dino, questionou na semana passada como ninguém percebeu as irregularidades do Banco Master. “Como ninguém viu? O elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de todo mundo”, disse.

Especialistas divergem sobre os motivos que levaram instituições públicas e privadas a ignorarem o problema até a liquidação do Master e a prisão de Daniel Vorcaro em novembro do ano passado. Eles concordam, porém, que Vorcaro e seus sócios não inovaram. Eles usaram a favor do banco os sistemas regulatório, político e jurídico, que incentivam a omissão em vez da denúncia. Isso abriu espaço para a fraude bancária mais cara da história do país.

As perdas são estimadas em R$ 60 bilhões. O valor supera as principais crises bancárias dos últimos 20 anos e os prejuízos da Lava Jato, que ficaram entre R$ 29 bilhões (segundo o TCU) e R$ 42 bilhões (segundo a Polícia Federal).

O advogado José Andrés Lopes da Costa, especialista em regulação bancária, acompanhou crises de bancos como Santos, Panamericano e Cruzeiro do Sul. Ele afirma que, apesar de o Brasil ter leis e profissionais competentes, a omissão contaminou as estruturas de regulação e fiscalização nos últimos anos. Para ele, há duas leituras possíveis para o caso Master. A primeira é a do escândalo, com falhas individuais e conluio. A segunda é mais técnica: os sistemas não oferecem incentivos para a reação, e cada agente percebe que tem mais a perder vendo do que não vendo.

O caso Master já deu exemplos dessa dinâmica. Em 2024, três gestores da Caixa Asset foram afastados após redigirem um relatório contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do banco de Vorcaro. Em 2025, a CVM julgou um caso envolvendo o Master e o empresário Nelson Tanure. O então presidente da autarquia, João Pedro Nascimento, votou contra as empresas e renunciou nove dias depois. O interino Otto Lobo reverteu o voto, dando ganho de causa às empresas. Em janeiro deste ano, o presidente Lula indicou Lobo para a presidência da CVM.

O economista Marcos Lisboa aponta dois outros fatores que incentivam a letargia do sistema. O primeiro é o risco de sanções para quem age preventivamente. Servidores que tentam evitar uma fraude podem ser processados ou questionados pelo TCU. O TCU, por exemplo, questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master, apurando possível “precipitação”.

Nos Estados Unidos, o ambiente é oposto. Quem faz um alerta preventivo não sofre penalidades se o alerta não se confirmar. Quem dá uma dica certeira pode receber prêmio em dinheiro. A False Claims Act, de 1863, garante ao denunciante de 15% a 30% dos valores recuperados. O Dodd-Frank Act, de 2010, criou um programa de denunciantes na SEC, com prêmios de 10% a 30% das sanções acima de US$ 1 milhão.

O segundo problema, segundo Lisboa, está na esfera privada. O Código de Defesa do Consumidor estabelece que todos os integrantes da cadeia de fornecimento são responsáveis por um produto. As corretoras, portanto, seriam responsáveis pelos produtos financeiros que oferecem. Ele afirma que bastava ler os balanços do Master para ver o risco de seus CDBs.

As demonstrações financeiras de 2020 e 2021 já mostravam que o Master concentrava seus ativos em precatórios e direitos creditórios federais, de liquidez incerta. Em 2023, 80% da carteira de títulos do banco era composta por ativos de baixa liquidez. Em 2024, dos R$ 18,4 bilhões em depósitos interfinanceiros, R$ 17,9 bilhões vinham de partes relacionadas, indicando dependência de recursos do próprio grupo.

O economista Roberto Teixeira da Costa afirma que a fragilidade do Master podia ser identificada de forma intuitiva. Para ele, se um CDB paga muito acima do mercado, isso já é um alerta. Ele diz que a ganância entrou em cena, com pagamento de comissões altas para a distribuição dos papéis. A proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) também ajudou a estratégia do Master, pois muitos investidores aceitavam taxas elevadas sem considerar o risco. Teixeira da Costa defende que o FGC seja recalibrado para reembolsar 75% do valor investido, obrigando as pessoas a avaliarem os riscos.

O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, destaca a presença de altas autoridades na rede de influência de Daniel Vorcaro. Essa rede, segundo ele, reuniu representantes dos três Poderes. Mesmo que passivamente, ela serve para intimidar. France afirma que a proximidade de ministros do Supremo reduz o incentivo para investigações. “Vorcaro inaugurou aí um novo patamar”, diz.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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