Bruno Gagliasso precisou sair de casa enquanto rodava o filme “Por um fio”. Na produção, que estreia em outubro e é baseada no livro homônimo de Drauzio Varella, o ator de 44 anos vive o irmão do médico, que morre de câncer. Na tela, sua interpretação comove à medida em que a doença avança e ele vai escalando o estado de tristeza. O trabalho mexeu com o corpo — ele perdeu 24 quilos — e com a cabeça. Bruno virou uma “manteiga derretida”. Nem a família aguentou. Ele assume que leva o personagem para casa. Não à toa, diretores o definem como “intenso”.
O vasto cardápio de personagens que ele encarna em diferentes filmes e séries inéditos vem aí para reiterar essa intensidade. Os papéis incluem: líder estudantil no longa “Honestino”; escravocrata moderno em “Corrida dos bichos”; versão branca e de olhos azuis do herói nacional em “Makunaíma XXI”; perigoso dono de construtora na série “Rauls”; e playboy traficante da sétima temporada de “Impuros”.
Bruno participou do “Conversa vai, conversa vem”, videocast do GLOBO, que vai ao ar hoje, às 18h, no Youtube e no Spotify.
“Olhar para os meus filhos foi dolorido. Eu chorava muito. Estava insuportável. Queria abraçar e beijar eles o tempo inteiro”, disse Bruno Gagliasso sobre a preparação para o filme.
Perguntado sobre como exatamente “Por um fio” mexeu com ele, o ator respondeu: “Não tinha como não ir fundo. É uma história de amor entre irmãos que mostra a fragilidade da vida. Mexeu demais comigo. Meu personagem morre de câncer, perdi amigos para a doença, que todo mundo conhece. Olhar para os meus filhos foi dolorido. Eu chorava muito. Estava insuportável. Queria abraçar e beijar eles o tempo inteiro. Do nada, falavam comigo e eu começava a chorar. Não foi a primeira vez. Em outros personagens, também tive que me afastar. Esse foi um dos personagens que me fez decidir escolher, daqui pra frente, só papéis que me emocionem, que me transformem como ator ou transformem as pessoas”.
Sobre o que vem sendo fundamental para transitar e imprimir verdade em papéis que são parte de universos tão diferentes, ele disse: “Está tudo dentro da gente, né? Procuro existir e não atuar. Lógico que ao fazer um viciado em ‘Impuros’ não vou cheirar cocaína. Mas preciso estar ali, presente. Posso fingir, mas não quero, e quem está assistindo, percebe. Preparadores me ajudam nesse encontro comigo mesmo. É por isso que saio de casa: fico longe porque gosto de emburacar. Admiro grandes atores que conseguem separar. Tony Ramos, por exemplo… Eu levo o personagem para casa, não sei separar meu trabalho. Preciso ficar pensando nele 24 horas”.
Sobre sua primeira produção no cinema, “Clarice vê estrelas”, que tem a ver com sua filha Titi e o jogador Vini Jr., Bruno afirmou: “De todas as histórias que estou contando, essa é a mais afetiva. Fiz esse filme pra ela. Colocar uma menina preta como protagonista… É a história de uma família preta, de classe média, com 80% do elenco e 90% da equipe preta. É um filme antirracista sem falar sobre racismo. Botar essa criança preta para sonhar, mexer no imaginário e não para sofrer, passar fome, tomar tiro… É difícil ver isso no cinema. Quero que minha filha sinta orgulho. E que outras crianças possam falar: ‘Quero estar nesse lugar aí, ser uma protagonista, fazer cinema’. Quando procurei Vini Jr. na cara de pau, ele topou entrar como produtor associado na hora”.
Sobre a importância de contar a história do líder estudantil Honestino Guimarães, ele declarou: “Se estive do lado da escória da História (em ‘Marighella’, interpretou um torturador), também quero estar do lado certo. Honestino morreu 50 anos atrás. E a nossa luta ainda é por justiça, liberdade e democracia até hoje. Temos que falar sobre isso, colocar o foco nessas pessoas que deram a vida”.
Perguntado se “ficar feio” é um recurso dramatúrgico para fugir do lugar de galã, ele respondeu: “Óbvio! Principalmente no começo da carreira. Hipocrisia dizer que não. As pessoas te encaixam onde querem e você se deixa ser encaixado ou não. Perdi muito protagonista de novela das oito porque falava: ‘Não quero fazer o galã, prefiro um papel menor’. O Tarso (de ‘Caminho das Índias’) foi assim, o Inácio (de ‘Celebridade’) também”.
Sobre sua vaidade, ele disse: “Já foi (questão sobre estatura). Hoje, não é. Olha o tamanho do meu tênis: fico com 174cm (risos). Cansei de usar salto. Pra personagem, então… (risos). Essas questões são fortes quando se é mais novo, está se descobrindo e ainda acha que precisa ter altura para fazer um galã de novela. Mas tudo é um estado. Falaram que estava feio de tão magro em ‘Por um fio’. Não me achei, porque tinha que estar daquele jeito. Nunca a vaidade da beleza vai ser maior do que a minha profissional”.
Questionado sobre como o TDHA e a hiperatividade impactaram sua rotina, ele afirmou: “Fui expulso de três escolas. Quando comecei a trabalhar, já tinha consciência. Tomo remédio desde sempre. Não decoro texto. Estudo, entendo o sentido. O que adianta falar uma palavra sem alma? O que quero dizer é mais importante. Na preparação, vou na ideia, na cena. Mas não consigo ler um texto que não me interesse e nem aceitar papéis que não quero fazer mesmo que ganhe uma fortuna ou seja, sei lá, Hollywood. Como estudar uma coisa que não me interessa? Quantas vezes fui filmar no Projac de carro e voltei com o motorista? Esqueci que estava de carro (risos)”.
Sobre a importância que dá ao dinheiro, ele disse: “Talvez, ter 12 cavalos. Mas não tenho o sonho de ter um avião. Gosto de dinheiro, mas gosto muito mais de tempo. Quero ter tempo para buscar minha filha na escola, levar meu cachorro no veterinário. Gosto de dinheiro para produzir filmes, vestir o que quero, estar aqui usando um negócio da Chanel, proporcionar infância legal para os meus filhos. Me vejo mais como investidor e realizador do que empresário. Tive muito negócio que não deu certo”.
Por fim, sobre as críticas de progressismo performático em relação à adoção de seus filhos na África, ele respondeu: “Eu vivo o que acredito, essa coerência. Amor não tem CEP. Não escolhi ir para a África para me tornar pai. Minha mulher se tornou mãe e eu me tornei pai porque ela foi visitar um país e encontrou o grande amor da vida dela, que é a nossa filha. Enquanto estão preocupados com a minha vida, eu estou vivendo, deixando um…”.
