Irã usa mísseis secretos em ataque inédito a base no Índico
O Irã atacou neste sábado (21) a base de Diego Garcia, no oceano Índico, empregando dois mísseis até aqui secretos, com um alcance desconhecido no Ocidente. Um dos projéteis foi abatido por um destróier americano na região e o outro caiu no mar.
A ação é surpreendente e dará argumentos para quem defende a continuidade da guerra iniciada há três semanas pelos Estados Unidos e Israel contra a teocracia, que tem na ameaça do programa de mísseis balísticos iraniano um de seus motivos para o conflito.
Segundo declaração do próprio presidente Masoud Pezeshkian no ano passado, o Irã dizia ter mísseis com alcance máximo de 2.000 km. Diego Garcia fica, por mar, a 3.800 km da costa do país persa. Como suas bases de lançamento são no interior, é presumível que os mísseis usados neste sábado possam voar 4.000 km ou mais.
Essa é uma capacidade que cobre praticamente toda a Europa, continente que até aqui se recusou a apoiar o pedido de Donald Trump para enviar navios para garantir a reabertura do estratégico estreito de Hormuz.
É provável que os mísseis em questão sejam versões aprimoradas da família Khorramshahr, cujo modelo 4, com alcance conhecido de 2.000 km, tem sido lançado com munição de fragmentação contra alvos em Israel neste conflito.
Diego Garcia, no arquipélago de Chagos, é uma base britânica usada há décadas pelos Estados Unidos. Inicialmente, neste conflito, Londres havia vetado a presença de bombardeiros para ataque ao Irã até há duas semanas, quando permitiu o uso de suas instalações lá e em Fairford (Inglaterra) para “ações defensivas”.
Desde então, ao menos 12 bombardeiros B-1B e 6 B-52 passaram a usar a unidade militar no Reino Unido. O avião furtivo ao radar B-2 voa diretamente dos EUA até aqui, em missões de quase 40 horas no ar apoiadas por aviões de reabastecimento.
Não se sabe se algum bombardeiro já foi usado em Diego Garcia, que já abrigou os três modelos. Imagens de satélite feitas no começo da guerra mostravam uma presença maior de aviões-tanque KC-135 e de caças F-16 americanos.
A base no Índico era considerada altamente estratégica por estar fora do alcance presumido de mísseis do Irã, além de não ter nenhum território estrangeiro a ser sobrevoado por aviões em rota de ataque à teocracia, dispensando assim autorizações. Agora o cálculo pode mudar.
O Ministério da Defesa do Reino Unido afirmou que “caças da Força Aérea Real e outros ativos militares continuam a defender nosso pessoal na região” e criticou as “ações irresponsáveis do Irã”, citando inclusive “o sequestro do estreito de Hormuz”.
Diego Garcia esteve também no centro de uma polêmica entre Trump e o premiê Keir Starmer não só devido ao veto britânico ao uso de bombardeiros, mas também pelo fato de que os britânicos estão em processo de devolução de Chagos às Ilhas Maurício, embora irão manter o direito ao uso da base.
Trump criticou Starmer pela medida, numa das etapas da crise entre o americano e seus aliados europeus. Na sexta (20), o republicano disse que os 30 países europeus da Otan eram “covardes” por não apoiar a reabertura de Hormuz, e que a aliança era “um tigre de papel” sem a musculatura militar de Washington.
Ainda neste sábado, houve ataques em diversos pontos do Oriente Médio. Israel bombardeou a central nuclear de Natanz, uma das principais do programa iraniano, cuja destruição é um dos objetivos declarados da guerra. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, não houve registro de contaminação radioativa na região atingida.
A base de Diego Garcia tem sido um ponto logístico fundamental para operações militares ocidentais na ásia e no Oriente Médio há décadas. Sua localização remota no Oceano Índico a tornava um local considerado seguro para o estacionamento de bombardeiros estratégicos e outras aeronaves de longo alcance.
O arquipélago de Chagos, onde a base está situada, é objeto de uma longa disputa territorial entre o Reino Unido e as Ilhas Maurício. Em 2019, a Corte Internacional de Justiça considerou que o Reino Unido deveria descolonizar o arquipélago. As negociações para a devolução, mantendo o acordo para a base militar, continuam em andamento.
