O Guangzhou FC, fundado em 1954 na cidade chinesa de mesmo nome, era um dos maiores clubes do país. Conhecido como “Tigres do Sul da China”, o time foi criado como uma representação do governo local, prática comum no futebol chinês.
A equipe só se tornou profissional 39 anos após sua fundação. Durante boa parte de sua história, alternou entre acesso e rebaixamento da primeira divisão, sendo coadjuvante em uma importante cidade comercial e financeira.
A situação piorou em fevereiro de 2010. O clube foi rebaixado para a segunda divisão como punição por um esquema de manipulação de resultados. A ação fez parte de uma investigação do Ministério da Segurança Pública, que descobriu subornos pagos por funcionários do clube para vencer partidas em 2006.
A operação também condenou outros times, prendeu ex-vice-presidentes da Associação Chinesa de Futebol, um árbitro da Fifa e jogadores da seleção nacional. Com dirigentes presos, o Guangzhou foi colocado à venda. Foi nesse momento que apareceu a Evergrande.
Ainda no início de 2010, o clube foi comprado por 100 milhões de yuans e passou a se chamar Guangzhou Evergrande. A nova dona era uma gigante do setor imobiliário que tinha origem na mesma cidade do time.
A compra foi idealizada por Xu Jiayin, fundador da empresa, que se tornou o principal gestor dos investimentos no futebol. Sob seu comando, a Evergrande acumulou 150 bilhões de dólares em ativos, aproveitando o êxodo rural e a alta densidade populacional da China.
Jiayin chegou a ser o homem mais rico do país em 2017. A Evergrande se tornou uma das maiores empresas do ramo, setor que representava um terço da economia chinesa até meados de 2022.
O potencial financeiro se tornou a principal arma do time. As propostas salariais eram consideradas excelentes, o que rendeu ao clube o apelido de “Chelsea da Ásia”.
A reformulação começou ainda na segunda divisão, em 2010. O time contratou grandes nomes do futebol chinês da época e também o atacante brasileiro Muriqui.
O jogador contou que hesitou ao saber que se tratava de um clube da segunda divisão, mas o projeto apresentado o convenceu. No final daquele ano, o Guangzhou foi campeão da segunda divisão e retornou à elite.
Os anos seguintes foram de grandes contratações. Passaram pelo clube nomes como Conca, Lucas Barrios, Paulinho, Elkeson, Alan, Aloísio, Talisca e Ricardo Goulart. O time atraía esses jogadores em momentos importantes de suas carreiras.
Barrios, por exemplo, aceitou a proposta em 2012 logo após vencer o Campeonato Alemão com o Borussia Dortmund. Paulinho foi emprestado ao Barcelona enquanto tinha contrato com o Guangzhou.
O ambiente para os brasileiros era receptivo, e a maioria cumpriu as expectativas no futebol chinês, conforme relatado pelo técnico Luiz Felipe Scolari.
O clube também investiu em treinadores de peso, como os campeões mundiais Luiz Felipe Scolari, Marcello Lippi e Fabio Cannavaro.
Os resultados vieram: oito títulos do Campeonato Chinês, duas Ligas dos Campeões da Ásia, duas Copas da China e quatro Supercopas. Felipão se tornou o técnico mais vencedor da história do clube.
Em 2020, foi anunciada a construção de um estádio para 100 mil pessoas em formato de flor de lótus. O projeto, orçado em 12 bilhões de yuans, era de Xu Jiayin e tinha inauguração prevista para 2022.
A Evergrande cresceu exponencialmente entre 2004 e 2020. Contudo, a estratégia de sucesso de Xu Jiayin foi baseada em uma série de empréstimos, cujos juros se tornaram insustentáveis.
A crise da empresa teve um impacto direto e profundo no clube. Scolari declarou que foi uma queda muito grande, que afetou muito os jogadores. O técnico disse sentir tristeza pelo ocorrido, mas mantém a alegria de ter vivido uma época incrível, com amizades e carinho do povo.
O Guangzhou Evergrande, heptacampeão chinês consecutivo e maior time do país na década de 2010, fechou as portas após a falência da empresa bilionária que o sustentava. A trajetória de ascensão meteórica e declínio abrupto marca uma era do futebol chinês.
A história do clube ilustra como o futebol na China ficou profundamente ligado ao capital de grandes conglomerados. A intervenção estatal para combater a corrupção no esporte, no início dos anos 2010, paradoxalmente abriu caminho para essa era de grandes investimentos privados, que depois mostrou sua fragilidade.
Outros clubes chineses também passaram a depender de grandes grupos empresariais, e a saúde financeira dessas companhias se tornou decisiva para a sobrevivência dos times. A queda da Evergrande serviu como um alerta para todo o modelo esportivo no país.
